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    Artigos ACIPG

Artigos ACIPG

Ainda o idiota - 13/05/2009 09:26:26
Revista  Veja  nº18

Maílson  da  Nóbrega

Ainda  o  idiota

"Enquanto  Galeano  escrevia  suas  bobagens,  surgiam  estudos  sérios  para  explicar  por  que  a  América  Latina  perdeu  para  os  EUA  e  o  Canadá  o  lugar  de  região  mais  rica  das  Américas"

Nada  simboliza  melhor  o  atraso  mental  de  Hugo  Chávez,  o  presidente  da  Venezuela,  do  que  o  ato  de  presentear  o  presidente  americano,  Barack  Obama,  com  o  livro  As  Veias  Abertas  da  América  Latina  na  recente  5ª  Cúpula  das  Américas,  em  Trinidad  e  Tobago.  Como  Chávez,  uma  multidão  de  latino-americanos  se  encantou  com  a  obra  do  uruguaio  Eduardo  Galeano,  publicada  em  1971  e  muito  reeditada  desde  então.

Galeano  tem  uma  resposta  fácil  (e  equivocada)  para  o  atraso  relativo  da  América  Latina:  a  exploração  de  suas  riquezas  pelos  colonizadores  espanhóis  e  portugueses,  e  depois  pelos  EUA.  Como  bem  disse  Reinaldo  Azevedo  na  edição  de  VEJA  da  semana  passada,  "As  Veias  Abertas  é  um  livro  errado  desde  as  primeiras  letras".

Ideias  como  essa  foram  demolidas  de  forma  bem-humorada  por  três  intelectuais  ?  o  colombiano  Plinio  Apuleyo  Mendoza,  o  cubano  Carlos  Alberto  Montaner  e  o  peruano  Alvaro  Vargas  Llosa  ?  no  livro  Manual  do  Perfeito  Idiota  Latino-Americano,  de  1996.  Roberto  Campos  prefaciou  a  edição  brasileira.  A  obra  de  Galeano  ganhou  o  epíteto  de  "bíblia  do  idiota".

Galeano  repetiu  Lenin  na  explicação  que  este  deu  para  o  fracasso  da  previsão  de  Marx  sobre  o  colapso  do  capitalismo:  somos  pobres  porque  os  ricos  nos  exploram.  "Podemos  ficar  tranquilos:  a  culpa  não  é  nossa",  zombaram  aqueles  três  em  A  Volta  do  Idiota,  de  2007.  As  teses  de  Galeano  "são  ao  mesmo  tempo  netas  de  Marx,  filhas  de  Lenin  e  sobrinhas  de  Freud,  graças  a  essa  providencial  transferência  de  culpa".

Enquanto  Galeano  escrevia  suas  bobagens,  surgiam  estudos  sérios  para  explicar  por  que  a  América  Latina  perdeu  para  os  EUA  e  o  Canadá  o  lugar  de  região  mais  rica  das  Américas.  Em  1880,  a  renda  per  capita  do  Brasil  ainda  era  semelhante  à  americana.  A  mudança  decorreu  basicamente  da  qualidade  das  instituições,  que  era  melhor  nas  ex-colônias  inglesas.

A  Nova  Teoria  Institucional,  que  daria  o  Prêmio  Nobel  de  Economia  a  Ronald  Coase  (1991)  e  a  Douglass  North  (1993),  permite  entender  a  ultrapassagem.  Para  North,  nos  EUA  e  no  Canadá,  herdeiros  das  tradições  anglo-saxônicas,  o  respeito  aos  direitos  de  propriedade  e  aos  contratos  alinhou  incentivos  para  que  os  empreendedores  investissem.  Criaram-se  as  condições  para  o  crescimento  acelerado.  Na  América  Latina,  a  cultura  e  as  instituições  ibéricas  eram  pouco  propícias  ao  desenvolvimento  capitalista.

Stanley  Engerman  e  Kenneth  Sokoloff  mostraram  que  as  minas  de  prata  na  América  do  Sul  espanhola  e  o  clima  favorável  ao  cultivo  da  cana-de-açúcar  no  Brasil  e  nas  colônias  inglesas  e  espanholas  do  Caribe  constituíram  a  base  da  prosperidade  latino-americana  entre  os  séculos  XVI  e  XVIII.  A  mão  de  obra  era  escrava.  A  riqueza  se  concentrava  nos  grandes  proprietários.  Estão  aí  as  raízes  das  nossas  desigualdades  sociais.

A  América  do  Norte  recebeu  imigrantes  artesãos  e  pequenos  agricultores.  Formou-se  uma  ampla  classe  média.  A  renda  era  mais  bem  distribuída.  A  religião  protestante  fomentou  a  educação  ao  estimular  a  leitura  da  Bíblia  sem  a  intermediação  de  sacerdotes.  A  educação  primária  foi  universalizada  no  século  XIX.  Em  1800,  os  EUA  possuíam  a  população  mais  alfabetizada  do  mundo.

Segundo  Engerman  e  Sokoloff,  "os  estudos  mais  recentes  sobre  o  processo  de  industrialização  nos  EUA  confirmam  a  hipótese  de  que  as  economias  do  Novo  Mundo  onde  havia  maior  igualdade  estavam  mais  bem  posicionadas  para  promover  o  desenvolvimento".  Na  América  Latina,  vicejou  o  capitalismo  de  compadres,  particularmente  no  bojo  das  políticas  de  substituição  de  importações.  Privilégios,  descaso  com  a  educação  e  leniência  com  a  inflação  pioraram  a  concentração  de  renda.

Culpar  a  "espoliação  imperialista"  pela  pobreza  latino-americana  é  mistificação  derivada  de  preguiça  mental  e  cegueira  ideológica.  Os  EUA  têm  defeitos,  mas  não  o  de  terem  enriquecido  nutrindo-se  das  veias  abertas  da  América  Latina.  Melhor  explicação  está  nas  instituições  geradoras  da  democracia  e  do  capitalismo  vigoroso,  que  ampliaram  o  bem-estar  e  catapultaram  o  país  ao  posto  de  maior  potência  em  pouco  mais  de  um  século.

Obama  poderia  oferecer  a  Chávez  os  dois  livros  sobre  o  idiota  latino-americano.  Não  adiantaria  muito,  mas  seria  uma  retribuição  à  altura.

Maílson  da  Nóbrega
é  economista.

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